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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Perigos do Natal II: À procura da Árvore-de-Natal



Nunca me hei de esquecer daquele dia de dezembro em que o meu pai me falou como se eu já fosse um crescido e me convidou para ir com ele à procura de uma árvore-de-Natal.
Pinheiro-manso
Então era assim! Sempre me tinha interrogado de onde viria a Árvore-de-Natal e para onde iria ela depois. Afinal tudo se resumia a um jogo das escondidas. Por isso é que o meu pai me convidou, eu era muito melhor que ele a descobrir quem estava escondido. Se ele nunca me conseguia encontrar dentro de casa, como iria encontrar a Árvore-de-Natal sabe-se lá onde? Só sabia que devia ser um sítio difícil de chegar porque o meu pai levava um machado com ele.
Entretanto a minha mãe tirava umas caixas da garagem e também ela me tratava como um crescido; como já estava na escola primária já podia ajudar a decorar a Árvore-de-Natal com as bolas, fitas e lâmpadas coloridas.
Se a Árvore-de-Natal estava toda despida como é que a íamos descobrir no meio de todas as outras árvores-não-de-natal que nos pudessem aparecer à frente? Estava intrigado. Especialmente com a atitude do meu pai, logo ele que não era capaz de encontrar duas meias iguais na gaveta.
Fomos a pé... Afinal ela não se escondeu longe!... Para o terreno atrás da minha casa... Estranho!!!
Percebi tudo num instante. No meio de tantas árvores até eu teria dificuldade em distinguir a minha Árvore-de-Natal, despida dos seus enfeites. Estava mesmo bem escondida.
“Achei!”, disse o meu pai. Duvidei, a minha Árvore-de-Natal era mais alta. Mas não quis estar com coisas logo na minha primeira atividade de gente crescida.
Quando o meu pai lançou o machado contra a base da árvore gritei como se sentisse a sua dor.
“Não há problema!”, tranquilizou o meu pai. E eu acreditei. Mas não aguentei ver as restantes machadadas que lhe deu até a arrancar do seu pedestal. E eu repetia para mim as palavras do meu pai, “Não há problema! Não há problema!”
Quando começou a arrastá-la para casa disse-lhe que eu também não gostava quando os mais velhos me faziam o mesmo no recreio da escola. Pô-la ao ombro como me fazia quando brincávamos à «saca de batatas».
Em casa, usou uns parafusos gigantes para prender a parte onde lhe tinha dado as machadadas ao sítio onde ela passaria o Natal. “Não há problema!”, repetiu, mas desta vez não acreditei. O Pai Natal não ia ficar nada satisfeito quando visse aquilo.
Ajudei a minha mãe a colocar os enfeites. Queria dar alguma alegria a esta árvore que roubámos do pinhal atrás da minha casa e que eu continuo sem acreditar que seja a minha Árvore-de-Natal.
Pinheiro-bravo
Fui ter com a avó Mira, ela tem sempre repostas para todas as coisas. Contou-me que a árvore que o pai trouxera, assim como as que lá ficaram, era um pinheiro-bravo, de onde as pessoas costumam tirar resina. (Por acaso lembro-me de um dia ter voltado com o cabelo cheio de cola depois de ter andado a brincar no pinhal.) Perto da casa da tia Juca são diferentes, chamam-se pinheiros-mansos, e é dentro das pinhas destes pinheiros que estão os pinhões que tanto gosto de comer.
Depois contou-me que no sítio onde Jesus nasceu não havia pinheiros nem árvores-de-Natal. Achei muito estranho. Se calhar a avó Mira estava a ficar esquecida.
Durante as férias de Natal conversava com a minha nova Árvore-de-Natal todas as noites.
Certo dia, a avó Mira trouxe-me um livro e contou-me a história das árvores-de-Natal. “Muitos povos do passado adoravam árvores e faziam festas em sua homenagem. No Norte da Europa alguns povos levavam pinheiros para casa na véspera do solstício de inverno, dia 22 de dezembro, e enfeitavam-nos. Como a data do solstício era tão próxima da do nascimento de Jesus, algumas pessoas começaram a usar estas árvores para celebrar o Natal.” Afinal a avó Mira continuava a saber muitas coisas.
Comecei a notar que a minha Árvore-de-Natal estava cada vez mais triste, ramos murchos e folhas secas. Se calhar tinha saudades das amigas lá do pinhal. Prometi-lhe que a levava de volta assim que acabasse o Natal.
Passado o Dia de Reis ajudei a minha mãe a tirar os enfeites e fui vestir um agasalho para ir com o meu pai ao pinhal.
Quando voltei do quarto ele tinha posto a Árvore-de-Natal... NO LIXO!!! Não podia acreditar.
“Esta morreu. Para o ano vamos buscar outra.”, respondeu com naturalidade.
Nem pensar!!! Voltar a dar machadadas numa pobre árvore para depois ir para o lixo?!...
Chorei até conseguir convencer os meus pais a plantarem um pinheiro num vaso. Prometi tomar conta dele e não deixar que ninguém lhe fizesse mal. Mas sei que até ter tamanho suficiente para lhe pôr os enfeites de Natal vai levar muito tempo. Até lá fazemos a nossa Árvore-de-Natal com cartão e outros materiais que costumamos pôr para reciclar.
Certo é que agora que sou crescido nunca mais deixo o meu pai ir roubar uma árvore à Natureza.

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