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sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Um nascimento desejado

Deixei de ouvir o seu coração bater.
E depois de um silêncio que me parecia eterno, os sons invadiram os meus ouvidos. Conseguia ouvir perfeitamente os papagaios-cinzentos a anunciar o meu nascimento.
Macaco-de-brazza
A Mamã incentivou-me a levantar e eu depressa me pus de pé, pois já estava cheio de fome.
Quando achou que eu já tinha comido o suficiente começou a andar e eu não tive outro remédio senão segui-la, ela é que tinha o leitinho que eu tanto desejava.
Caminhámos durante dois dias, nem os macacos-de-brazza conseguiram acompanhar o nosso percurso, mas finalmente encontrámos um refúgio que a Mamã considerou ideal.
Eu tive de ficar muito sossegado, deitado no chão da floresta, enquanto a Mamã se alimentava. Não gostava nada da ideia de ficar com as meias brancas sujas de lama mas não tive outra alternativa.
Durante os meus primeiros dois meses de vida a Mamã nunca tinha horas certas para me dar de mamar. E eu nem defecava, para os predadores, como os leopardos, não darem por mim.
Valeu a pena a espera. Com seis meses e cada vez a precisar menos do leite materno, comecei a ir à escolinha da floresta.
O primeiro dia foi o das apresentações. A professora Maria, um elefante-da-floresta, ia chamando um a um:
-        Okapi Paco!?
-        Presente – respondi animado.
Porém, no final do segundo dia disse à Mamã que não queria lá voltar. Os meus colegas búfalos-da-floresta gozavam com o meu andar. “Onde é que já se viu mexer as duas pernas do mesmo lado para andar?! Ah! Ah! Ah!”, diziam eles com os seus passos a pernas alternadas.
Mas a Mamã disse que não me preocupasse com isso. Era um orgulho sermos parentes próximos das graciosas girafas, e não dos búfalos-da-floresta brutamontes.
Ao terceiro dia as coisas não correram muito melhor. Os pavões-do-congo gozavam comigo. Enquanto um gritava: “Oh Paco, porque tens umas orelhas tão grandes?”, o outro respondia imitando a minha voz: “É para te ouvir melhor!”. E passaram o dia nisto.
Fiquei tão zangado que lhes mostrei a minha língua enorme.
Os macacos-de-beiço-branco baloiçavam-se no meu pescoço e montavam-me como se fosse um cavalo. Até que o Boris, o Bonobo acabou com aquela macacada toda e os meus colegas começaram a respeitar-me.
Com o Bota, o Bongo, foi fácil fazer amizade, fazíamos uma dupla imbatível a jogar às escondidas. Para além de termos uma ótima camuflagem, os nossos colegas confundiam-nos as riscas. Eh! Eh! Eh! Que belos momentos.
Mas nem tudo são maravilhas aqui na floresta de Ituri. Um dia recebemos na escola um gorila-oriental-das-terras-baixas que tinha ficado órfão.
Okapi
Uns animais que de vez em quando invadem e destroem a floresta, chamados humanos, tinham morto toda a sua família.
A professora Maria explicou que eles vão às minas à procura de um mineral chamado tantalite. É usado nas baterias dos telemóveis. Eu nem sequer percebi o que isso era, só sei que tive muita pena do Gorila Gui.
As aulas na escolinha da floresta corriam muito bem, éramos todos bons alunos, e até o Gui se sentia feliz. Mas pouco tempo depois as sitatungas vieram à escola informar que estavam de partida. Alguém tinha construído um muro gigante no rio, e as plantas de que elas se alimentavam tinha todas desaparecido. Dizia-se baixinho que esse muro era coisa dos humanos.
Algumas das aves que passavam pela nossa floresta traziam novidades: os humanos continuavam a destruir a floresta e a caçar animais selvagens. Que tristeza!

Mas curiosamente havia outros humanos que não queriam que isso acontecesse e montaram guarda na nossa pequena floresta para que pudéssemos continuar a viver descansados.

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