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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Nem os darwinistas compreenderam Darwin

No passado dia 12 de Fevereiro, celebrou-se o nascimento de Charles Darwin, um homem que mudou o curso da história, que influenciou o pensamento científico da sua época.
A este britânico, nascido no ano 1809 em Shrewsbury, facilmente associamos o tema evolução. Muitos se lembrarão também de uma das suas obras mais relevantes “A Origem das Espécies por Meio da Selecção Natural”.
Robert Darwin, pai de Charles, escolheu uma carreira médica para o seu filho, mas este pouco se interessava por esta temática, preferindo o estudo da história natural.

Depois de se formar em Cambridge, em 1831, foi convidado a ingressar, como naturalista, no Beagle, um navio da Marinha Real Inglesa comandado por Robert FitzRoy. Mais tarde, em 1839, publicaria o relato da sua viagem, cinco anos a bordo deste navio a percorrer a costa sul americana.
O convite para a viagem no Beagle surgiu no momento certo. Darwin andava a ler o livro de um explorador alemão, Alexander von Humbolt, sobre as suas viagens das Canárias à América do Sul, e desejava fazer o mesmo.
Foi nesta viagem que visitou as Galápagos. Interessou-se o suficiente pelos tentilhões para enviar alguns para o ornitólogo John Gould identificar. Mas não foi nesta altura que se apercebeu das adaptações das várias espécies, dos respectivos bicos e comportamentos, ao habitat onde viviam ou ao seu regime alimentar.
Sobre as aves, o que mais o impressionou nas Galápagos foi a mansidão das mesmas, que pouco temiam o homem e nada sabiam sobre predadores. Dentro do grupo dos répteis não foram as tartarugas-gigantes o alvo da sua admiração, mas as iguanas-marinhas.
Interessado por fenómenos geológicos, especialmente desde que começara a ler os “Princípios de Geologia”, de Charles Lyell, também se deixou impressionar pelos fenómenos de vulcanismo das ilhas.
Darwin voltou desta viagem com importantes contributos para a geologia. Por um lado, assistiu a um terramoto no Chile que fez elevar a costa 60 a 100 cm e mais tarde encontrou fósseis marinhos a 4000 metros de altura nos Andes, o que o fez acreditar que os terramotos poderiam explicar a formação da montanhas. Por outro lado, formulou uma teoria sobre recifes de coral, descrevendo as etapas do processo de formação dos mesmos.
Ao longo da viagem e depois do seu regresso, Darwin compilou inúmeros cadernos com apontamentos sobre biogeografia, taxonomia, embriologia ou paleontologia que se viriam a revelar extremamente importantes, em particular, para a sua obra “A Origem das Espécies”.
Antes da sua publicação em 24 de Novembro de 1859, publicara um sumário de 35 páginas em 1842 e um ensaio de 230 páginas em 1844. Contudo, sabendo que a sua obra poderia causar algum desconforto na comunidade científica e que encontraria muitos opositores, Darwin quis antes de mais afirmar-se como um cientista experiente, um taxonomista respeitado, publicando uma monografia sobre cirrípedes (cracas e percebes), em quatro volumes.
Embora naquela época o conceito de evolução, já explorado por Eramus Darwin (avô de Charles Darwin) ou por Lamarck, ainda não tivesse grande aceitação entre a comunidade científica, foi um dos argumentos mais facilmente aceites após a publicação de “A Origem das Espécies”. Até a relação do homem com os restantes primatas não enfrentou grande contestação.
Houve até criacionistas que defenderam a evolução mas com mecanismos e objectivos completamente distintos dos de Darwin.
O que a comunidade científica não estava preparada para aceitar – mesmo os seus seguidores demonstraram pouca afinidade com os conceitos –, foram as ideias de gradualismo e de selecção natural.
O gradualismo defendia que a evolução ocorreria pela acumulação de pequenas modificações ao longo de várias gerações, mas muitos defendiam o saltacionismo, grandes modificações, possivelmente numa única geração.
No mecanismo de selecção natural de Darwin, essas modificações graduais, locais e não direccionadas, caso tornassem o indivíduo melhor adaptado e lhe conferissem melhor sucesso reprodutivo, seriam transmitidas à sua descendência e gradualmente teriam mais expressão na população.
A selecção natural incluía assim, embora não exclusivamente, a luta pela sobrevivência, que era aceite há muito pela comunidade científica. A expressão, mais tarde usada por Darwin, sobre “a sobrevivência do mais apto” foi referida pelo filósofo Herbert Spencer.
Mas Spencer afirmava que os indivíduos que se esforçavam mais, os que eram mais perfeitos, sobreviviam, enquanto que para Darwin a selecção natural não implicava apenas luta pela sobrevivência, mas um sucesso reprodutivo diferencial, que levaria a transmissão de variações que surgiram de modo aleatório e que não têm obrigatoriamente de conferir uma vantagem adaptativa desse animal.
Foi a falta de desígnio, a ausência de um objectivo final, a inexistência de um plano superior, que tornou a aceitação da selecção natural tão difícil. Com a agravante de que não havia registo de observações de evolução a ocorrer na natureza, por meio de selecção natural.
Mesmo alguns darwinistas, muito mais defensores de Darwin, o cientista, do que da sua teoria completa, que incluía selecção natural, sentiam necessidade de justificar a evolução como a busca pela perfeição, atribuindo um sentido mais espiritual à evolução, do que a vertente totalmente materialista defendida por Darwin.
Mesmo hoje em dia a selecção natural ainda não foi totalmente aceite dentro e fora da comunidade científica.


Fonte: Avelar, Teresa, Margarida Matos e Carla Rego (2004). “Quem tem medo de Charles Darwin”. Relógio d' Água Editores, Lisboa, p.99

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